Soslaio
O verdadeiro antijornalismoinvestigativo do Leste europeu
Quem sou eu
Este é o primeiro blog de antijornalismoinvestigativo do mundo ocidental. Nascida no Leste europeu, nossa escola mistura jornalismo, literatura, ficção e crítica social. A grande Matriarca do antijornalismo dirige todas as redações do mundo de seu QG. Temos contatos no congresso, senado e igrejas. O presidente da Armênia está em nossa folha de pagamento. Nossas histórias misturam realidade com alucinações, verdades e mentiras. A equipe é composta por ex-agentes da KGB, jornalistas de tablóides da imprensa marrom inglesa, adestradores de pit-bulls, estagiários não remunerados e todo tipo de massa humana disposta ao trabalho duro. Somos uma espécie de legião-estrangeira da imprensa mundial. Todo tipo de escroque bate ponto aqui na redação. Temos correspondentes por todo o mundo, infiltrados em todos os governos e ONGs. Agora mesmo se você olhar para o lado e vir algum anão com a maior cara de inocente, cuidado: ele pode ser um anti-repórter.
Sábado, Maio 20, 2006
Domingo, Janeiro 01, 2006
Um corpo e um tapete
- A triste saga do filho da porca
- Parte 4 – Sai um tapete, chega uma porta
- Que porra que é isso aí, cara!? – perguntou o cabeludo, com a voz fraca e ainda apontando a arma para o corpo desfalecido.
O negro estendeu o braço e cobriu o cano da pistola do parceiro com sua enorme mão.
- Abaixa isso meirmão! – ordenou, enquanto ele mesmo forçava o braço do cabeludo em direção ao chão – “Isso” é o fodão do partido, que viemos buscar! – falou enquanto comparava o ser desmaiado, nu e imundo com a fotografia do tesoureiro usando terno e gravata que acabara de tirar do bolso.
O gordo enxugou o suor da testa com a manga do terno e se aproximou do corpo encolhido no chão da cozinha. Com o pé empurrou-o até que ficasse de barriga para cima. Pegou a foto da mão do negrão e, incrédulo, atestou:
- E não é que é mesmo o filho da puta! Caralho, o cara parecia um demônio gritando daquele jeito, peladão e todo cheio de merda espalhada pelo corpo.
O negro passou por cima do corpo de Genial, abriu algumas portas do armário que estava à sua frente até que achou uma toalha de mesa que jogou sobre o corpo.
- Com essa toalha a gente não suja as mãos. Vamos carregar esse desgraçado até a sala e ver como faremos para sair do prédio sem chamar a atenção.
Já na sala, o gordo sacou o celular, fez uma ligação e passou o aparelho para o parceiro falar.
- Alô... Olha, achamos o tesoureiro. Mas tem um problema, acho que o cara pirou, tivemos que desmaiá-lo... Certo... tudo bem... ok. – desligou o telefone e passou-o de volta ao gordo.
- A parada é a seguinte: vamos ter que levar esse puto, assim mesmo, desacordado. Enrola o cara nesse tapete menor aí do canto que vou chamar o elevador.
Na saída do prédio muita gente estranhou aqueles dois homens de terno carregando um tapete estufado e aparentemente muito pesado, mas ninguém fez perguntas. Lá, na capital, sabem que não é bom fazer muitas perguntas em situações desse tipo.
Jogaram o tapete no banco traseiro do carro. O gordo foi até o porteiro e lhe falou algumas poucas e graves palavras, entregou um cartão, cumprimentou os seguranças do prédio com um leve gesto de cabeça e entrou no carro onde o parceiro o esperava. Cantando pneus, desapareceram. Minutos depois, chegava uma van com uma equipe de marceneiros carregando uma porta nova.
- Parece que alguém vai reformar um dos apartamentos... – comentou uma senhora para seu poodle.
(continua no próximo “post”...)
Quinta-feira, Dezembro 22, 2005
- Parte 3 – Dentes e nervos
Não havia mais o que esperar. O negro, que estava mais próximo da entrada da cozinha, fez um sinal com a cabeça para que seu parceiro se aproximasse:
- Se afaste uns dois metros, vou entrar e você dá cobertura – sussurrou no ouvido do companheiro, que imediatamente deu três passos lentos e silenciosos para longe da parede onde estava encostado.
O negro afrouxou a gravata, desabotoou a gola, enfiou a mão desarmada dentro da camisa e retirou um escapulário. Olhou para a imagem do santo presa ao barbante e a beijou. Novamente colocou-a para dentro da camisa, meio sem jeito tentou arrumar a gola só com uma das mãos, mas desistiu. A mão direita apertou a coronha da arma e a esquerda alisou com carinho o cano cromado. Um último olhar confirmou que o cabeludo estava no local certo. Um, dois, três! ...
Cruzou a porta com seu mais de um metro e oitenta de carne negra e suada apontando sua pistola prateada para todas as direções, logo atrás o seu parceiro repetia seus movimentos em direções opostas. Um grito, dessa vez ainda mais alto, horrível e dolorido dominou o ambiente. O susto foi tanto que a arma do cabeludo quase caiu.
Debaixo de uma mesa, a fonte do som: um ser (um homem?), nu, sujo de fezes e vômito, tremia e gritava arreganhando os lábios e expondo ameaçadoramente os dentes enquanto gritava.
- Cale a boca! – bradou o negro já apontando firmemente o cano da pistola para aqueles dentes.
- Cale a porra dessa boca! – berrou o cabeludo, também apontando sua arma, mas com as mãos tremendo.
Como os gritos alucinados da criatura só aumentavam, o negro em dois rápidos passos chegou à mesa, agarrando-a por uma das pernas e atirando-a contra a parede. Em seguida levantou a arma e aplicou uma brutal coronhada contra a cabeça do homem-porco que desmaiou imediatamente.
Assim fez-se o silêncio naquele pequeno inferno.
(continua no próximo “post”...)
Sexta-feira, Dezembro 16, 2005
Um caótico e fétido inferno
- A triste saga do filho da porca
- Parte 2 – Um caótico e fétido inferno
A edição do jornal paulista com a entrevista de Carminha circulava por todo o país. Telefones tocavam, vozes se elevavam e mãos tremiam na sede do partido de Genial. Como ninguém atendia aos telefonemas no apartamento do tesoureiro, as ligações para seu celular só caiam na caixa postal e o assessor enviado anteriormente para contatá-lo havia desmanchado no ar, resolveram mandar dois “seguranças” com ordens de trazer o homem que era pivô deste escândalo, por bem ou por mal, mas sem alvoroço, à surdina.
Um negro com cabelos “black power” e um branco gordo, com brinco e rabo de cavalo, ambos usando ternos pretos e dirigindo um carro igualmente preto, seguiram em alta velocidade em direção ao prédio de Genial. No caminho conversaram sobre “fast-food”, Amsterdã, massagens no pé e outras amenidades. Estacionaram em cima da calçada e ao cruzarem com os seguranças do prédio apenas trocaram olhares cúmplices. Pegaram o elevador e, chegando ao andar de destino, certificaram-se de que não havia ninguém no corredor. Com a mão direita na pistola presa à cintura, o gordinho tocou a campainha... Nada... O negro sacou a arma, se colocou ao lado da porta e bateu três vezes nela... Nenhuma resposta... Os companheiros se entreolharam e o branco ajeitou a franja, colocando-a atrás da orelha com a mão esquerda, enquanto que com a direita levava a arma, apontada pra cima, à altura do rosto:
- Senhor Genial, só viemos ver se está tudo bem. Voltaremos amanhã para conversarmos, se não se importar – dito isto, ambos meteram as solas dos pés na porta com tanta força que a madeira abaixo da maçaneta se partiu e a porta bateu na parede interna do apartamento e voltou, ficando entreaberta.
Neste instante, simultaneamente ao estrondo do arrombamento, gritos lancinantes, inumanos, pavorosos e apavorados vieram lá de dentro. O segurança negro arregalou os olhos e entrou com a arma em punho, mirando para alvos imaginários que o assombravam. O gordinho cabeludo veio logo atrás dando cobertura. Os gritos aumentaram e, então percebia-se, vinham da cozinha. Ambos estavam assustados com o som, mas seguiam sem hesitar, como bem treinados soldados urbanos que são. O cheiro... que cheiro horrível! Mas não é hora pra reparar em cheiros - pensava o negro. O que é isso espalhado pelo chão junto aos restos de comida,... será merda? Como este lugar fede – chocava-se o cabeludo.
Lateralmente à entrada da cozinha, de costas para a parede, eles aguardaram por momentos. Os gritos foram diminuindo até que só um ou outro grunhido agoniado era emitido de tempos em tempos. Então, em poucos segundos, os homens de terno preto, suados mais pelo nervosismo do que pelo esforço físico, varreram o local com os olhares: misturadas a excrementos havia comida estragada, garrafas de bebida, uma grande televisão com a tela rachada e folhas de jornal rasgadas espalhadas pelo chão... um caótico e fétido inferno.
Sábado, Dezembro 10, 2005
Segunda fase – Sob as luzes
- A triste saga do filho da porca - Segunda fase – Sob as luzes
- Parte 1 – O confronto
Terminamos no “post” passado a primeira fase dessa triste narrativa. Quem nos leu até agora, pôde acompanhar a saga de Genial: seu nascimento em um chiqueiro; a morte de sua mãe (a porca Joci); a infância na fazenda, muito traumática, pois repleta de violência e abusos; a fuga para cidade; seu encontro com irmã Carminha na escola católica, seguido pela sedução, defloração, exploração e abandono da ex-religiosa transformada em prostituta; a gloriosa e rápida ascensão do homem-porco como tesoureiro de um partido político; a volta de Carminha ao foco de nossa antimatéria; o transtorno psicológico e a regressão ao estado de porco que Genial sofreu devido ao medo causado pela possibilidade de ter seu passado revelado pela puta sifilítica; a entrevista dada por Carminha e, por fim, perceberam no último “post” a felicidade deste antirrepórter ao saborear a repercussão do estouro da bomba midiática (quem não acompanha ainda o SOSLAIOBLOG e ficou curioso, leia os “posts” anteriores para saber dos detalhes desse drama).
Pois bem, agora entramos na segunda fase de nossa antimatéria. Dos chiqueiros anônimos, dos corredores sombrios do colégio católico, das ruas infectas de vícios, vamos agora para o ofuscante, mas não menos infecto, mundo dos flashs, das câmeras, dos discursos feitos por assessores. A partir destas linhas, narraremos os bastidores do confronto que irá acontecer em frente às câmeras e aos microfones. O jogo agora se faz público, e, portanto, mais complexo. Arapongas, estagiárias sedutoras, assessores de imprensa venenosos e paparazzos serão peças importantes e saber controlar seus movimentos pode mudar tudo.
Sábado, Novembro 19, 2005
- A triste saga do filho da porca
Portanto, meu desjejum foi composto por um charuto médio e uma dose e meia de vodka com suco de laranja. Enquanto me deliciava com tão esplêndidas drogas legais, saboreei a bela edição que a entrevista de Carminha ganhou: duas páginas inteiras com a transcrição das principais partes do depoimento. Na abertura da matéria uma foto em close do rosto da pobre puta coberto de lágrimas. Na terceira página um retrospecto da ascensão de Genial na política nacional e um infográfico colorido mostrando a localização da fazenda onde o homem-porco nasceu, a rota feita de caminhão até a escola onde viveu no chiqueiro. Na seqüência entrevistas com cientistas, biólogos, veterinários e médicos tentando esclarecer se existe a possibilidade de algo nascer como fruto do acasalamento de um ser humano com uma porca. Todos os artigos de opinião falavam sobre assuntos relacionados às declarações da gorda e míope prostituta: um psicólogo ligado ao partido de Genial dizia que Carminha devia ser internada; um cientista político, com doutorado em sociologia, fez belas metáforas a respeito de porcos, homens e da história recente da política nacional; um antigo jornalista cobrou a abertura de um processo na comissão de ética do partido para a averiguação das denúncias.
A bomba havia explodido. Dei mais um trago na minha bebida e observei a fumaça do charuto desenhar o ar. Como foi agradável imaginar a correria nas redações nesse momento: os telefones dos principais repórteres políticos tocando neste início de manhã, todos acordados e convocados para o trabalho; os editores berrando e ameaçando demitir seus subordinados por terem sido “furados” de maneira tão espetacular.
(continua no próximo post...)
Sexta-feira, Novembro 11, 2005
Charutos e ensinamentos Zen
- A triste saga do filho da porca
Digamos que aliviado, voltei para o apartamento após os “favores” prestados pela jovem repórter. Graças a isso, e à ingestão de mais uns 250 mililitros de néctar do Leste, dormi esplendidamente bem e acordei com a campainha do celular as seis da manhã. Era o repórter do jornal paulista para o qual Carminha concedeu a entrevista exclusiva.
- Senhor Smirgolov, bom dia, espero não tê-lo acordado. Não irei tomar seu tempo. Em frente à porta do apartamento no qual está hospedado tem um pequeno presente. Tenha um bom dia – disse tudo isso em um só fôlego e desligou, provavelmente com receio de estar me incomodando.
Caminhei até a sala e abri a porta, no chão havia uma cesta de café da manhã cheia de viadagens. Quando a levantei vi que em baixo dela estava a edição de hoje do jornal. Levei tudo para dentro e coloquei sobre a mesa. Antes de ler, ou mesmo de olhar por alto, de soslaio, a primeira página eu me lembrei dos ensinamentos de Yong Ding Kim – mestre coreano de yoga, meditação, tae kwon do e hap ki do:
“Controle seus impulsos no dia-a-dia para que nas situações extremas sejas dono de si mesmo. Contenha a curiosidade, os desejos, o ódio e as vontades, até que as emoções sejam subjugadas. Torne a contenção sua atitude natural por meio da concentração e disciplina.”
Pensando nestas palavras não me contive nem por mais um segundo e desdobrei o jornal sobre a mesa pensando em como é bom não ser um coreano zen. O título da matéria principal estampava o alto da primeira página: “Ex-religiosa diz ter se prostituído a mando de tesoureiro do partido do governo”; o subtítulo era: “Mulher chega a afirmar que Genial não é um ser humano, mas sim uma mistura de porco com homem”. Antes de continuar a leitura senti a boca seca e fui ver na cesta se tinha algo bebível. Champanhe, água mineral com gás, saches de chá, biscoitos – porra, não poderiam me dar uma cesta de café da manhã para homens heterossexuais? - pães, geléia, patês, charutos... charutos! Sim, nem tudo estava perdido. Tiveram o bom senso de mandar belos charutos cubanos.
(Continua no próximo “post”...)



